Sinopse: Uma paixão à primeira vista dentro de um ônibus pode se tornar uma amor à segundo beijo em um bar. Taquicardia? Sudorese? Gagueira? Com o tempo tudo isso passa.
I
Estendo o braço para fazer o motorista me enxergar e fazer o ônibus parar, descobri essa nova linha ontem e ela me deixa mais próximo do meu trabalho, agora não preciso caminhar mais as oito quadras até a parada de ônibus. Muito melhor. Passo a roleta. Tem tanta gente. Pelo menos mais gente do que da outra linha.
- Pelo menos pessoas bonitas são o que me parece - rio sozinha.
Engravatados e mulheres bem maquiadas. Há perfume bom aqui. Vou em direção ao fundo e me sento ao lado de uma dessas mulheres de saia até o joelho, que usam meia-calças faça verão, faça inverno e digamos de passagem que está fazendo um calor bem grande para outubro.
Na contralateral, sentado no corredor, tem um cara que me chama a atenção: no meio de tanta gente na estica, alguém se veste casualmente. Tento desviar os olhos algumas vezes, mas me paro observando: o único de branco no meio de tanto preto, coincidentemente, também estou de branco, já que trabalho de jaleco, fica bem mais fácil de colocar branco sobre branco. Somos os únicos de jeans e tênis branco também. Outra coincidência. Ele está carregando um canudo desses de quem desenha, pode ser que ele seja um designer ou talvez um arquiteto com seus projetos.
Tem as mãos delicadas de quem desenha. Deve ser designer. Gosto daquele tipo de mãos longas em homens; passa-me uma sensação de uma sutil delicadeza e ao mesmo tempo uma habilidade de quem pode tocar um instrumento musical, manusear um bisturi cirúrgico ou algo muito minucioso. O cara tem uma barba ruiva, ou pelo menos parece ruiva aos meus olhos, esses meus óculos de sol às vezes me enganam quanto a realidade.
Está chegando perto do shopping, essa é a parada dele. Acho que ele retribuiu meu tímido olhar e dentro do peito sinto uma certa inquietação misturada com adrenalina que faz subir até a garganta. Deve ser minha imaginação à mil. Tchau cara do ônibus, tão lindo, amor de meia hora.
II
Depois de três meses pegando o mesmo ônibus, às vezes, vendo o cara do ônibus com amigos; outras vezes, sozinho; não consigo disfarçar mais as minhas olhadas, quando me pego observando, rapidamente tendo disfarçar e tentar achar alguma loja mais interessante para olhar na avenida através da janela. E então fico fantasiando:
- Será que ele também está me olhando? Ou será que ele está olhando pro além, perdido em pensamentos?
Estou seriamente achando que ele está retribuindo os olhares, em alguns dias; porém quando ele olha de volta tenho taquicardias e sudorese nas mãos, abaixo a cabeça e sinto um rubor nas bochechas.
- Será tudo fruto da minha imaginação?
Palpitações!
III
Hoje entrei no ônibus, decidida que vou lhe entregar um cartão de visita com meu número de celular. Acotovelo-me entre gravatas e saltos altos, chego perto, esperando a moça de terminho descer na parada que eu já decorei que ele sempre desce; respiro; penso:
- Se eu for falar qualquer coisa, vou acabar gaguejando, melhor só entregar o cartão. A parada que ele desce é a próxima. Pare de tremer. Pare de suar. Finja naturalidade. Entrego o cartão ou não? Coragem, já chegou até aqui, agora entregue.
Impulso!
Entrego o cartão. O cara do ônibus olha o cartão, sem saber o que fazer e agradece de uma maneira que não sabe se está interrogando ou exclamando:
- Obrigado?!
Ele desce do ônibus. Desaparece. No mesmo dia me manda uma mensagem de texto pro meu celular para eu adicioná-lo em uma rede social.
Bingo!
- É arquiteto, não disse? É foi mais ou menos o que imaginei, parece simpático, mas está sem tempo hoje para conversar. Droga.
IV
Passado um dia, pego um ônibus errado, de nervosa para não encontrá-lo.
- Iria falar o que? Gaguejar de nervoso? Não.
Parei não sei aonde e me mandaram dobrar à direita que logo chegaria na avenida e me acharia. Ainda bem que é sexta-feira, assim não preciso ver ele amanhã também.
- Que vergonha. O que eu fui fazer?
No sábado começamos a conversar às 20 horas, com muitas coisas pra falar, descobrimos até amigos em comum. Como ele é legal, temos algumas coisas em comum, papo de banda, papo de computador, papo de esportes, papo que não tem fim. Olho no relógio do computador e são 4 horas da manhã.
- Nossa, como o tempo voou! Já está quase pra amanhecer. - assim nós dois concordamos.
Ele diz que deveríamos ter saído para ter conversado ao vivo e eu fico pensando que foi melhor assim porque assim evitei a minha gagueira nervosa e a minha falta de jeito com pessoas que desconheço.
Combinamos um bar para o próximo dia, assim como eu; prefere bares às discotecas, shows ao vivo a baladas com apenas música no som. Um bar é uma excelente escolha para poder conhecê-lo melhor.
V
Domingo é o dia, e o cara vai vir para me buscar em casa e eu já comecei a ficar nervosa na espera. Me mandou uma mensagem que está quase chegando. Quando entrei no ônibus fiquei muda ao seu lado, porém, ele reagiu naturalmente conversando, perguntando se eu estava bem, deve ter visto as minhas mãos nervosas, me tremendo um pouco.
- Está tudo bem sim. - respondo sorrindo, olhando com olhos tímidos.
VI
No bar, papo rola solto graças a uns bons copos de chopp que eu já tomei, ele pediu água com gás, limão e gelo; o que me deixou ainda mais nervosa, então, pedi algo com álcool para destravar a língua.
Papo. Papo. Papo. Como falamos de tudo.
- Será que ele gostou de mim?
Chego perto demais e agora dei um beijo nele.
- Putz. Não gostei! - falo alto no ápice da minha sinceridade alcoólica.
Ele olha e exclama:
- O que?
Então ele me beija de verdade e é o melhor beijo do mundo.
- Será que vale dizer que foi amor à segundo beijo? - suspiro em pensamento.
Saímos de mãos dadas. Esse é o cara do ônibus, nem acredito, é uma pessoa tão bacana e me parece ser super do bem. Deixa-me em casa como um bom cavalheiro.
VI
Segunda-feira, dia agourento como as pessoas costumam descrevê-lo, porém um dia especial para o que já havíamos combinado para depois do trabalho: um jantar na minha casa. Ele está trazendo as coisas dele junto, já traz seus filmes, seus pertences e suas intenções. E eu não sei exatamente a razão ou sequer a explicação dessa coisa toda, mas sinto que o embarque nesse ônibus vai levar a um belo lugar com a companhia perfeita para uma longa viagem.
VII
- Alô amor, sei que você deve estar envolvido na construção, mas também sei que estou com desejo daquele croissant de goiaba e queijo que só a padaria da esquina do escritório sabe fazer, por favor, vai até lá e traz uns quatro para mim. Tem mais alguém escalando o sofá para falar no telefone aqui.
- Papai, "quelo" um "clossan" também.
- Tá bom, um croissant para essa baixinha aqui também. Te espero com a janta pronta meu amor. Beijo. Te amo!
- Você tem uma mensagem na secretária eletrônica. Ouvir agora?
Conto escrito para o Concurso "Eu Amo Escrever" da Loja Cantão em parceria com a Editora Livros Ilimitados.
http://www.li3.com.br/clientes/euamoescrever/conto.php?cara-do-nibus&p=4e5465f1229ff
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